Joinville, 15 de Julho de 2010
Curso de Comunicação Social do BOM JESUS/IELUSC – Da concepção ao cenário atual
Em atenção às manifestações relacionadas ao Curso de Comunicação Social, a Direção Geral do BOM JESUS/IELUSC sente-se no compromisso de compartilhar com todos a reflexão que segue.
O Curso de Comunicação Social do BOM JESUS/IELUSC foi concebido a partir de uma demanda teológica, apresentada no “Congresso Luterano de Comunicação – IECLB (Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil), anos 90 Comunicação e Testemunho”, realizado nos dias 19 a 22 de maio de 1988, em Joinville. Neste Congresso foi proposto que a Igreja elegesse os anos 90 como sendo a década da comunicação.
O editorial do Jornal Evangélico da IECLB, de junho de 1988, em síntese, recomendava às comunidades a se sensibilizarem para a importância da comunicação, repensá-la a partir do receptor, reconhecendo-o como sujeito no processo comunicativo, que é compromisso da Igreja promover comunicação, que transforme situações de opressão em justiça social.
O Presidente da IECLB, na oportunidade, Dr. Gotfried Brackemeier, no culto de encerramento do Congresso lembrava “que a comunicação não vai bem no mundo e por isso ela preocupa, que ela devia conduzir para uma melhor união e comunhão... “, ficando claro que se torna necessário uma comunicação que cria comunidade, pois os meios de comunicação, ainda dividem mais as pessoas ao invés de aproximá-las. Por isto mesmo, a comunicação autêntica, que é participativa, libertadora e profética, pode revitalizar o espírito comunitário.
Dos painelistas do Congresso, participaram representantes de instituições como Luteranos Unidos em Comunicação (LUC), Conselho Latino Americano de Igrejas (CLAI) e Associação Mundial de Comunicação Cristã (WACC).
O Professor Ismar de Oliveira, da UCBC, foi incisivo quando lembrou que “há necessidade de implementar ações práticas que levem os seus membros a intervirem na elaboração de políticas nacionais de comunicação”, envolvendo-se, principalmente, na luta para obter espaços e recursos para fazer comunicação, referindo-se a canais de comunicação. Sugeria também o professor que a Igreja implantasse projetos práticos no campo da ação pedagógica, que contribuíssem para motivar os cristãos a conhecerem seus papéis e seus direitos na comunicação. Dizia ainda que a sociedade em geral compreende comunicação como persuasão, como manipulação, e nós tomamos este exemplo e o injetamos em nossa Igreja e nos esquecemos do poder de Cristo que liberta.
Segundo alguns pensadores, certamente tem a ver como se articula a questão fundamental de toda a antropologia: pode o ser humano compreender a si próprio quando abstrai de Deus? As ciências humanas tendem a analisar o seu objeto sob muitos enfoques e cada uma certamente contribui para a elucidação do universo antropológico. Mesmo assim, existe um mistério que não se desvenda sem o recurso a Deus, pois sem este permanecerá incompleto todo o saber. De outra forma, a questão colocada que pergunta sobre a natureza do ser humano, tem na percepção do Divino e na comparação com o mesmo, uma de suas vertentes vitais.
Cabe, pois, questionar sobre o significado do poder de comunicação, considerando criatura e Criador. Onde, afinal, é possível perceber a linha divisória entre o poder da comunicação, entendido como serviço prestado para a sociedade, comprometido com os respectivos princípios éticos e o poder meramente manipulativo?
A Bíblia afirma ser Deus quem define o ser humano e lhe confere identidade. Isto significa dizer que a relação com o Criador é essencial para a compreensão do fenômeno humano.
A identidade e dignidade do ser humano advém da sua qualidade de imagem de Deus.
No contexto da criação, o ser humano ocupa uma posição privilegiada: de ser feito a imagem de Deus e de ter recebido a delegação para dominar toda a Terra, recebendo a incumbência de governar sobre ela.
No livro de Gênesis lemos que o ser humano deve moldar o meio, imprimir-lhe cultura, cultivar o jardim de Deus. Ele é a um só tempo parte da criação e gestor dela. A tarefa de dominar a Terra não o desvincula da responsabilidade própria da criatura diante do Criador.
Estabelece-se um status e um compromisso que se manifesta na concepção da idéia da parceria da comunhão com Deus. De uma fantástica proximidade com o Criador. A comunicação entre Deus e Criatura sempre será de parceiros, de interlocutores. Não existe, portanto, uma substância divina no ser humano implantada desde a criação. O certo é falar em uma estrutura antropológica, numa destinação, numa vocação. É um ente de natureza relacional que na comunhão com Deus encontra a razão de sua existência. A fé constitui uma necessidade elementar do indivíduo e da sociedade, exercendo sagrado papel fundamental na vida das pessoas, também dos comunicadores. A imagem de Deus é um atributo, designa um status definido, não uma capacidade. É como um título que outorga dignidade de direitos frente aos demais seres humanos e à própria natureza. E, tendo sido o ser humano revestido de poder decisório, recebeu liberdade. De qualquer forma, o desígnio de ser imagem de Deus fundamenta a nobreza do ser humano, o status inclui uma atribuição. É sinônimo de responsabilidade, atributo e atribuição encontram-se numa correspondência dialética, firmando a idéia de que o ser humano de fato seja o que é. Deve o comunicador aprovar sua dignidade na vivência dialógica com Deus e sua liberdade, assumindo corresponsabilidade pela causa ecológica, social e política no mundo.
O Novo Testamento fala de Jesus Cristo como a imagem de Deus no sentido pleno e irrestrito. O anseio pelo “novo ser humano” veio cumprir-se em sua pessoa. E como enviado de Deus veio mostrar que o poder não se impõe pela força, pela manipulação e sim pelo amor. Nesta perspectiva é que o exercício do poder da comunicação não pode ser confundido com o poder-dominação, nem com o poder-a-serviço, e sim com o poder-serviço que procura eliminar a dependência desenvolvendo a autonomia. A esfera do poder-serviço é a construção do poder-conjunto, e para o exercício do poder-conjunto da cidadania, os cristãos têm como modelo Jesus Cristo. O exercício do poder para Jesus Cristo é serviço. E é nesta perspectiva que procuramos assumir a implantação do Curso de Comunicação para assegurar que a opção também na comunicação seja a busca da construção de uma sociedade nova, que precisa de uma perspectiva radical do poder-serviço, um poder que não seja exercido apenas pela força e sim através do amor, pela dignidade do ser humano, pela magnitude do universo, enfim, que a linha divisória entre a manipulação e o serviço possa ser demarcada por este poder que emana do Filho do Homem.
Neste Congresso, sendo o Colégio BOM JESUS, da Rede Sinodal, uma das escolas que já ensaiava seus primeiros passos para ingressar no Ensino Superior, com o Curso de Enfermagem, o BOM JESUS aceitou o desafio proposto e decidiu construir um projeto do Curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo e habilitação em Publicidade e Propaganda. Convidou, então, a jornalista Christa Berger, da UFRGS, que fora uma das painelistas do evento, para fazer o primeiro desenho do Curso de Comunicação Social do BOM JESUS.
Nesta perspectiva, o projeto do Curso foi lapidado em três fóruns Pró-Ielusc que aconteceram em setembro, novembro e dezembro de 1993. Autorizado pelo MEC em dezembro de 1997, foi implantado em março de 1998. Muitos foram os profissionais que contribuíram substancialmente na concretização do projeto e no reconhecimento do curso pela sociedade.
À época, houve o entendimento de que seria viável a criação de uma instituição de ensino superior junto ao Colégio BOM JESUS, já com vasta caminhada na Educação Básica. Desta forma, em 1995, foi criado o Instituto Educacional Luterano de Santa Catarina – IELUSC, que passou a usufruir de toda a estrutura administrativa e física do então Colégio BOM JESUS. Em 2001, no entanto, a Diretoria Administrativa constatou a inviabilidade do projeto se conduzido de forma independente e decidiu pela incorporação do IELUSC pelo Colégio BOM JESUS, nascendo, assim, o Instituto Superior e Centro Educacional Luterano BOM JESUS/IELUSC, hoje, por força do Novo Código Civil, Associação Educacional Luterana BOM JESUS/IELUSC.
Tendo em vista que uma organização de serviço, de direito privado, sem fins lucrativos e de caráter comunitário, deve demonstrar sustentabilidade, equilíbrio entre o aspecto administrativo e acadêmico, preparando-se para alcançar resultados no curto prazo sem comprometer sua capacidade de gerá-los no futuro, o BOM JESUS/IELUSC entende que o tempo para subsidiar o Ensino Superior já transcorreu.
Primordial para o desenvolvimento sustentável é a abertura de uma nova forma de pensar e agir, considerando sempre a responsabilidade social (os cursos mantidos pelo BOM JESUS/IELUSC têm todos caráter social), “agregando conhecimento à sua carteira estratégica, através da contribuição de mentores profissionais e utilizando ferramentas gerenciais de conhecida eficácia”, que proporciona a melhoria qualitativa das decisões, sabendo conjugar ousadia com prudência, inovação com solidez e mudança com mantença.
Em face do cenário atual do Ensino Superior no Brasil, o próprio Ministério da Educação, prevendo dificuldades para as IES menores (faculdades) determinou através de Ofício Circular expedido pelo INEP no dia 13/05/2010, alterações de critério no regime integral, na exigência de titulação e no núcleo docente estruturante. Os três itens deixaram de ser “indicadores imprescindíveis” para avaliação de curso, em função de decisão da Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior – CONAES.
A incumbência para gerir a Associação Educacional Luterana BOM JESUS/IELUSC cabe à Diretoria Executiva, ao Conselho Diretor, ao Conselho Fiscal e à Assembleia Geral. Estas são as esferas nas quais se discutem e aprovam questões ligadas ao Planejamento Estratégico, Orçamento, Projetos e Planos, segundo atribuições explicitadas no Estatuto, no Regimento e nos Princípios Norteadores da Gestão Educacional aplicada no BOM JESUS/IELUSC.
Os relatórios financeiros, após aprovados pelo Conselho Diretor, são auditados por auditores independentes, fiscalizados por um Conselho Fiscal e publicado em jornal de circulação local e, finalmente, apresentados para aprovação da Assembleia Geral.
Coerente com o profissionalismo da gestão adotada, o BOM JESUS/IELUSC conta ainda com a assessoria da Fundação Dom Cabral, ligada à PUC de Minas Gerais, indicada como a 6ª no ranking mundial de Educação Executiva (segundo publicação do jornal inglês Financial Times no dia 24 de maio do corrente ano).
O cenário atual exigiu uma tomada de posição em relação à sustentabilidade do Curso de Comunicação Social. As diretrizes, ora em implementação, são válidas também para os demais Cursos.
A crise, quando surge, tem que ser tratada de forma criativa, dando outra ordem diferente e melhor, abrindo espaço para uma nova oportunidade.
Lembrando das palavras de Leonardo Boff em momentos de crise: “Não precisamos recorrer ao ideograma chinês de crise para saber da sua significação de risco e oportunidade. Basta recordar o sânscrito, matriz das línguas ocidentais: crises vem de kir ou kri, que significa purificar e limpar, de kri vem também crítica, que é um processo pelo qual nos damos conta dos pressupostos, dos contextos, do alcance dos limites, seja do pensamento, seja de qualquer fenômeno. De kri deriva também acrisolar, que quer dizer depurar e decantar. A crise, portanto, representa a oportunidade de um processo crítico, de depuração do cerne. Só o verdadeiro fica. O aparente, o superficial, o acidental cai sem sustentabilidade. É a partir deste cerne que se constrói uma outra ordem que representa a superação da crise, investindo na essência, na constante qualificação.”
Tito Lívio Lermen
Diretor Geral do BOM JESUS/IELUSC